quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Intra.

Ser efêmero é ser para mim mesmo.
Quando em um feriado me dou conta
De mim, num vão.
Em um movimento esquizofrênico de não querer ser.

O tédio vai acabar com meus cigarros.
E com o pouco de inocência que sobra em minhas palavras.

É sistêmico.
Um falso diálogo em duas vias.
Que acaba junto com minha única vontade de não existir.

Cansei do demorar do livro de sempre.
Da monotonia da diversidade musical.
Meu tédio é a consciência mórbida de saber que não há mais cores a serem vistas.

E tudo acaba quando vejo no céu, que está a ponto de chover, uma sacola de supermercado voando alto na ventania.

Amarela.

O céu vai cair.

Catarse.
E eu vou finalmente me tornar anjo.

domingo, 14 de outubro de 2007

CASULO em Carta

...É exatamente como esta noite de domingo que te digo que amo.
Você, cara amiga, que me relata seu repudio pelo nascer semanal,
Digo-te mais uma vez que o que para ti é limbo, para mim é recanto.
Escuto no entardecer deste dia, a chuva molhando minha rua.
E sinto o cheiro da rua molhada em minha cama. É um gozo.
E desta relação com a natureza é que nasce meu momento íntimo.
O vento penetrando a janela de meu quarto.

Porém, te entendo.
Este momento é propício para ser dividido.
Comigo e outrem.
Para você é uma solidão que exala um calor escatológico de ser só.
E domingo é lembrar do que já é e do quem se tem a fazer.
De sentir saudade, porém nostalgia do momento que nunca teve.

Por isso então, te aconselho.
Se te encontrares em um casulo, não faça do seu paraíso, moradia do diabo.
Não faça da reflexão, redundância.
Não faça do viver, tédio.

Faça amor narcísico.
Crochê de retalhos de momentos ternos e cor pastel.
Como o gosto puro do leite de seio, da lágrima, do suor.
E do calor de seus braços, faça recanto.

Digo-te de novo, menina:
Não é fechar os olhos que vêem o de fora em espanto.
É perspectiva interna.
Melhor que fingir.
É encanto.

[Dedicado à Adriana, la belle fille avec son chat.]

sábado, 29 de setembro de 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Até.

Se entender é limitar
Quero ser espaço.
O que há na ponta de algo.
O fato.
Claro e simples.
De cá à lá. Finito.
Que passa pelo até e acaba.
No ato.
Fico frustrado só de pensar na expansão.
Universo.
E se limito, me sinto.
Quero ser da ordem da física.
Peso e massa
A razão quando fico disperso.
Quero o fio da meada.
Quero ser fio.
O material. A célula.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Identidade

A busca pela construção da identidade é um longo trajeto no qual não temos nenhum ponto de chegada concreto, são apenas diferentes divagações de objetivos e expectativas que nos fazem percorrer uma vida para alcançá-los. O ponto de partida de todos é a pequena estrutura parcialmente vazia e livre de princípios morais e éticos, com alguns reflexos e alguns instintos que nos faz experimentar a percepção sensória pela primeira vez. Desenvolvendo-nos a partir desta massa branca amorfa, é que vamos aos poucos apalpando o ambiente que nos circunda tentando reconhecer em cada material tocado, o nosso bem primordial, nossa sobrevivência, nossa figura materna.
Tendo em mente um ser que construiu o conceito de propriedade e limites, vamos crescendo em movimentos que tangem uma espiral, expandindo-nos infinitamente como um universo de pensamentos éticos, culturais e sociais que 'esculturam' nossa consciência em algo estético e pseudo-harmônico.
Essa identidade é intrínseca ao ser que não suportando sua existência solitária perfeita, transcende sua essência em representações criadas a partir de relações com outros de sua mesma espécie. Aqui percebemos a dinâmica metamorfósica do desenvolvimento psico-social do homem. Posto que quer ser livre, esta larva dá vazão aos seus impulsos ingênuos, e desmistificando e mistificando seu ambiente, alcança o ápice de seu progresso psico-social. Este foge ao casulo quando se vê incapaz de diferenciar e refletir sobre as diferentes representações que foram geradas devido à subjetividade existente nos grupos sociais de seu cotidiano. A multiplicidade da identidade é uma adaptação a esta característica da sociedade pós-moderna.
Quando se vê maduro o suficiente para viver uma idéia de liberdade e autonomia, o casulo é biologicamente desfeito.

Torna-se metamorfosicamente outra pessoa.

É este processo que todos os severinos e severinas atravessam desde o momento que possuem uma atividade sobre o mundo. Os objetivos, sonhos, expectativas de um futuro podem até ser os mesmos em sua essência, mas a sua forma paralelamente se transforma.
Sem questionar a linguagem, a política e os complexos emocionais ululantes no desenvolvimento humano, chega-se aqui ao questionamento do uso errôneo do "ser outra pessoa", pois há de se levar em conta o trajeto como um todo. E é exatamente por isto que muitos de nós hoje em dia não podemos definir em uma resposta concisa quando nos perguntam:

- quem é você?

Estamos em contínua transformação, somos uma identidade em movimento, e por termos guardado em nós faces de nosso passado e algumas noções do que seremos no futuro, nos encontramos em um entrave paradoxal, que nos faz responder respostas frustrantes e corriqueiras do dia-a-dia como "sei lá" ou "nunca parei para pensar".

segunda-feira, 16 de abril de 2007

ululante.

Mas era tão óbvio que nasceu no Natal. Não exatamente à meia noite mas às 02h37 da madrugada, quando toda sua família festejava e celebrava o ar limpo que só uma tradição religiosa poderia proporcionar. A vó mariazinha e o vô zé, a mãe o pai , a irmã mais velha (ainda pequena) que balançava seu vestido, admirando as bolinhas rosas que se movimentavam junto a ela como numa dança lisérgica. O tio já caído entre as garrafas de champagne, a titia mostrando as fotos pras crianças, e relembrando que naquela época ela que tinha feito a janta, não a outra irmã chata, solteira e gorda.
Havia uma festa. Um sentimento que começara a brotar em cada gota de sangue daquela família unida que só. Mas ele tinha de nascer.

não houve pânico.

o pai cansado, que no momento da notícia das contrações estava ouvindo os discos velhos que seu pai costumava tocar na época natalina, deu o último gole no copo de vinho como engolindo toda uma vontade que acabara naquele momento. Foi até o carro, onde a mãe já sentada no carro balançava seu pé ansiosamente para parir logo e voltar pra festa. Seus olhos admiravam as ruas, ao mesmo tempo que se contorciam involuntariamente pela dor. As estrelas não importavam naquele bairro, pois as estrelas eram os pisca-piscas, e o reflexo dos olhos das crianças que olhavam pra rua desfrutando de uma intensa surpresa que era a descoberta da imensidão da percepção.
Quando chegaram ao hospital, o lugar jorrava silêncio em seus olhos. Tudo branco, parado e arrumado. Um pouco andar pela recepção, ouviram uma música que vinha do fundo de um corredor escuro, onde algumas luzes coloridas resplandeciam na parede num tom opaco e sereno. Seus olhos se abriram, e foram caminhando até a pequena sala, onde encontravam-se médicos, enfermeiras e a recepcionista, jogando cartas e tomando vodka. Ao perceberem a mulher apoiada na parede admirando a garrafa semi-cheia em cima da mesa, eles se levantaram como num musical e, organizados numa dança, a levaram numa maca para a sala de parto.
Uma enfermeira preparava uma cadeira de rodas para o homem que também viera, mas desculpou-se quando ele a informara que era o pai, e esperaria alí mesmo na sala das cartas, enquanto servia-se em um copo de plástico um tiquinho de vodka, com um tiquinho de gelo.

Era 00h05, e o pai brincava com as cartas enquanto enchia o seu copo com um tiquinho de vodka que sobrara da garrafa. Os médicos e enfermeiros comemoravam o nascimento às 2h37. O ginecologista cuidava da mãe, enquanto as enfermeiras limpavam o bebê, e os médicos contavam seus dedos.

O pai havia terminado um castelo de cartas exatamente no momento que a enfermeira entra na sala, como que iluminada pela pequena árvore que se localizava num cantinho da sala bem humilde e bem brilhante e colorida.

- é um garoto, senhor!

Aquele anjo não poderia trazer notícia melhor. O pai como que se equilibrando pelas paredes do corredor foi correndo para seu carro, ligou o rádio e tamanha era sua sorte, a música que ouvia na festa de sua casa tocava naquele momento no rádio-toca-fita. Inclinou seu assento, e olhou para a rua. Como que agradecendo aos céus pela noite feliz que lhe dera. As luzes coloridas da rua do seu bairro naquela madrugada iluminavam sua alma.

a vida do garoto? não importa. era tão óbvio que viveu até o dia que seu filho nasceu, num natal, enquanto ouvia em seu mp3 a música que seu pai ouvira anos atrás, admirando as luzes da rua que aos poucos formava uma constelação cada vez mais opaca e serena.

quarta-feira, 21 de março de 2007

summertime, time.

Engraçado quantas músicas, pinturas, filmes retratam a imensidão do tempo, e como o nosso dia gira em torno de míseras 24 horas contadas, e dentro de cada dia se espera mais tempo, para que se encontre tempo pro tempo.

Não temos noção.

Neste benefício que a vida nos propõe, poderíamos considerar as 5,6,8 horas de sono como horas de vida? Muitas pessoas não considerariam. Mas são horas essenciais quando se pensa nos 'minutinhos' a mais na cama, aquele segundo a mais debaixo do cobertor quando o outono aproxima-se de soslaio, com um tom bege escondido no verde.
Eu penso em 20 anos que foram contados em minha vida, por exemplo. Considerando a expectativa de vida, classe social, genética e agregados, posso concluir ingenuamente que estou a 3/4 da morte. ou sou um copo 1/4 cheio?
Aprendi que o tempo é mãe da vida, e não é a vida que fertiliza nossas vidas com o tempo. Pense: Obviamente sem vida não temos tempo, pois seríamos inexistentes. Porém é o Tempo e o Espaço que dão caminho à vida para que dentro desta façamos uso racional de um movimento de translação contando-o em 24 horas. Uma base sólida existencial e abstrata que gesta nossa existência, nossa vida útil, de outros seres vivos, e de outros objetos.
Com base em um universo que se expande (ou não) em um determinado tempo, vivemos.
De acordo com um determinado padrão, um método, um planeta, nação e sociedade, vivemos.
Neste tempo vivemos. E o que você andou desfrutando?

O verão ficou a um lado.

O verão, que deixa aquele gosto mórbido e nostálgico de suor, anestesia e gozo.
O sol vai-se esvaindo entre as nuvens, e o seu calor vai se esvaindo de nossas braços, e o calor some.
E o amarelo some, que vai se misturando mimoso entre o laranja, e o verão acaba.
Mas não se desespere.
Há tempo.

domingo, 18 de março de 2007

analogias, contos e outros discursos da mariposa.com

Dentre todos os seres vivos que compõem este terceiro planeta do sistema solar, os que passam por uma transformação no mínimo curiosa são os seres que sofrem do processo de metamorfose, ou seja, vêm ao mundo de forma simples (não-complexa), passando pelo intermédio do casulo para o desenvolvimento isolado, e assim poder exercer um diferente aspecto, o que na ciência biológica, chamamos de metamorfose indireta.
Este atributo é encontrado em sua maior parte em insetos e anfíbios, de diferentes formas. Mas em questão me instiga os holometabólicos. Os que passam pelas 4 fases bem distinguidas:
o ovo, a larva, o casulo e a forma adulta. E as 3 espécies que por possuírem caraterísticas parecidas e que vale o esforço de estudá-las pela beleza de sua história vital são as Borboletas, as Efémeras e as Mariposas.

Metamorfose.

Esta especificidade inigualável de amadurecimento de um ser terráqueo me faz pensar em diferentes formas, contextos, texturas e cor do processos metamorfósicos que nós, seres humanos, passamos durante o decorrer da nossa existência.
E de qual espécie somos nós?
Efêmeros, Vivazes, ou Noturnos?
Que fase nos encontramos de nossa própria metamorfose?
ovo? somos larvas buscando instintivamente algo que não é de nosso conhecimento? estamos dentro de um casulo? ou já somos formas adultas? Creio eu que cabe a cada um com seu devido analista pensar e refletir sobre o que és e em que tipo de habitat social estás inserido.

Dentro deste jogo de palavras e cores; entre uma analogia, contos e alguns discursos; e na medida em que minha razão e pensamento lógico me permite organizar um raciocínio, nada mais faço que escrever.

pois asas somente temos dentro de nosso inconsciente artístico, e olhe lá.