segunda-feira, 16 de abril de 2007

ululante.

Mas era tão óbvio que nasceu no Natal. Não exatamente à meia noite mas às 02h37 da madrugada, quando toda sua família festejava e celebrava o ar limpo que só uma tradição religiosa poderia proporcionar. A vó mariazinha e o vô zé, a mãe o pai , a irmã mais velha (ainda pequena) que balançava seu vestido, admirando as bolinhas rosas que se movimentavam junto a ela como numa dança lisérgica. O tio já caído entre as garrafas de champagne, a titia mostrando as fotos pras crianças, e relembrando que naquela época ela que tinha feito a janta, não a outra irmã chata, solteira e gorda.
Havia uma festa. Um sentimento que começara a brotar em cada gota de sangue daquela família unida que só. Mas ele tinha de nascer.

não houve pânico.

o pai cansado, que no momento da notícia das contrações estava ouvindo os discos velhos que seu pai costumava tocar na época natalina, deu o último gole no copo de vinho como engolindo toda uma vontade que acabara naquele momento. Foi até o carro, onde a mãe já sentada no carro balançava seu pé ansiosamente para parir logo e voltar pra festa. Seus olhos admiravam as ruas, ao mesmo tempo que se contorciam involuntariamente pela dor. As estrelas não importavam naquele bairro, pois as estrelas eram os pisca-piscas, e o reflexo dos olhos das crianças que olhavam pra rua desfrutando de uma intensa surpresa que era a descoberta da imensidão da percepção.
Quando chegaram ao hospital, o lugar jorrava silêncio em seus olhos. Tudo branco, parado e arrumado. Um pouco andar pela recepção, ouviram uma música que vinha do fundo de um corredor escuro, onde algumas luzes coloridas resplandeciam na parede num tom opaco e sereno. Seus olhos se abriram, e foram caminhando até a pequena sala, onde encontravam-se médicos, enfermeiras e a recepcionista, jogando cartas e tomando vodka. Ao perceberem a mulher apoiada na parede admirando a garrafa semi-cheia em cima da mesa, eles se levantaram como num musical e, organizados numa dança, a levaram numa maca para a sala de parto.
Uma enfermeira preparava uma cadeira de rodas para o homem que também viera, mas desculpou-se quando ele a informara que era o pai, e esperaria alí mesmo na sala das cartas, enquanto servia-se em um copo de plástico um tiquinho de vodka, com um tiquinho de gelo.

Era 00h05, e o pai brincava com as cartas enquanto enchia o seu copo com um tiquinho de vodka que sobrara da garrafa. Os médicos e enfermeiros comemoravam o nascimento às 2h37. O ginecologista cuidava da mãe, enquanto as enfermeiras limpavam o bebê, e os médicos contavam seus dedos.

O pai havia terminado um castelo de cartas exatamente no momento que a enfermeira entra na sala, como que iluminada pela pequena árvore que se localizava num cantinho da sala bem humilde e bem brilhante e colorida.

- é um garoto, senhor!

Aquele anjo não poderia trazer notícia melhor. O pai como que se equilibrando pelas paredes do corredor foi correndo para seu carro, ligou o rádio e tamanha era sua sorte, a música que ouvia na festa de sua casa tocava naquele momento no rádio-toca-fita. Inclinou seu assento, e olhou para a rua. Como que agradecendo aos céus pela noite feliz que lhe dera. As luzes coloridas da rua do seu bairro naquela madrugada iluminavam sua alma.

a vida do garoto? não importa. era tão óbvio que viveu até o dia que seu filho nasceu, num natal, enquanto ouvia em seu mp3 a música que seu pai ouvira anos atrás, admirando as luzes da rua que aos poucos formava uma constelação cada vez mais opaca e serena.

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