...cuidado onde pisa!
(...) Espere, não se aborreça!
Se te incomodei foi somente esta noite, pois vivi contigo durante sua vida inteira.
Olhe pra baixo, Gigante.
Vais precisar evocar maiores forças para desalojar-me daqui!
Eu que vivi durante meses entre seus dedos dos pés,
que escalei os seus braços a cada retorno.
Pedindo um olhar, pedindo socorro.
Deixe-me explicar, me dê 3 minutos: durante 22 anos me perdi além-alto mar!
Sim, vim de uma ilha distante, que após uma catástrofe se extinguiu.
Sobrevivi como pude,
um náufrago de mim mesmo,
porém jamais vil.
Trouxe como bagagem uma pequena trouxa com devaneios nublados persistentes,
envoltos em roupa suja, entre lenços umidecidos e uma velha escova de dentes.
Uma vez, enquanto estavas distraido, procurei guardar meus pertences em seu bolso esquerdo.
Na ânsia de hospedeiro, nem me dei com o furo que havia dentro.
Com minhas velhas roupas então, e habilidades de costureiro, fiz um remendo,
e nu lá permaneci, me aquecento com o calor de seu charuto e de seu melancólico alento.
Olhe seu tamanho.
Você é um mundo maior que eu!
Serias em minha aldeia uma divindade.
Não por ignorância ou medo da calamidade,
mas por sua elegância de majestade.
Sendo alto, belo e inteligente,
você é um mundo maior que eu.
Contudo, eu sou universo, a partícula,
então escute com atenção a pequena criatura que em teu corpo se acolheu.
Você é novo e inseguro,
Teimoso, com vícios e apreciador de um certo agouro.
Percorrendo seu vestuário, percebi que já passaram por aí outros hospedeiros,
mas fizeram em ti defeituosos remendos, disfarçados em falso ouro.
Percebi também que durante sua hibernação você se contorce, infeliz em seu leito.
Não percebias, mas tinhas dentro de ti um pequeno artesão,
que mesmo no aperto de seu corpo dormente, corrigia suas falhas, em vigilia, por gratidão.
(...) Observou o ajuste? Confie em mim, é de boa qualidade.
Em minha ilha nada mais fiz que trabalhar roupas de outrém,
As que visto são simplórias, prefiro ver os outros bem,
não me importando para o que está aquém.
Enfim, sinto muito pelo infortúnio, contudo pense nos benefícios de minha companhia.
Noto em seu olhar o medo de acordar e não me encontrar algum dia.
Feche seus olhos, sinta a sincronia de sua melodia com minha tentativa de poesia.
Não percebes nossa simbiose, o afeto e mútuo acolhimento?
Nunca me cansarei de seus vícios, mesmo se este for o sofrimento.
(Fecho os meus olhos)(...) É quase tudo o que minha pequena mão consegue transcrever.
É quase nada do que minha pequena boca almejaria expressar.
Dê o próximo passo, amigo.
Mesmo esmagado na sola de seu pé, permeável, estarei para o infinito contigo.
(Sinto que vem em minha direção, me anuncia a intensidade do vento.Não é pelo som de seus passos, ou o barulho de sua respiração ofegante, repleto de maldade.Embora queira, nada posso ouvir. Soa alto em minha cabeça uma bela canção,a Valsinha da Saudade.)(...) FIM.
Dedicado a Gustavo Fujiwara.